O mito de suicídio em massa dos lêmingues parece melhor aplicável aos humanos.
Tenho a impressão que os humanos caminham para a morte com um olhar aparvalhado, a boca babando, mirando painéis publicitários e com um sentimento reconfortante de que havendo tantas outras pessoas fazendo a mesma coisa é porque estão certos!
Mais um passo! Mais outro passo e já já chegaremos lá! O paraíso está logo ali.
Tal como o mito do suicídio dos lêmingues os humanos caminham (alguns correm) direto para o precipício.
Com 7 bilhões de pessoas comendo, produzindo lixo, consumindo energia, não demora a chegar este paraíso... Sim, paraíso para o planeta que vai poder voltar ao seu equilíbrio depois que os humanos tiverem desaparecido. O aumento populacional somado ao consumo desequilibrado de energia e bens descartáveis nos leva a este fim.
Este consumo desmedido e o descaso com a quantidade de gente pipocando à nossa volta como se fossem lêmingues no cio está diretamente relacionado com o modo como vivemos e pensamos.
A seis séculos atrás os lêmingues na Noruega se multiplicavam tanto que cientistas afirmavam que caiam do céu, por parecerem surgir de um dia para o outro. A expansão das favelas não é apenas reflexo de uma economia tirânica mas principalmente de uma reprodução descontrolada.
Se você tem cerca de 30 anos ou mais deve lembrar quando não haviam computadores pessoais (PCs), nem celulares (nem mesmo os tijolões Motorola), nem internet pública (já havia mas só era usada em universidades e algumas empresas) e os carros não eram descartáveis.
Assim podes entender melhor o que vou comentar.
As necessidades de conforto e bem estar sempre existiram. O sonho da caverna própria deve existir no sangue humano desde o paleolítico. Mesmo sendo tão antiga a paixão humana de possuir bens vou mencionar os últimos 30 anos, quando tal necessidade era igualmente forte mas num período em que aconteceram grandes mudanças sociais e tecnológicas.
Então pergunto, como as pessoas de 30 anos atrás conseguiam concretizar estes sonhos sem celulares, redes sociais atrofiantes e carros de plástico?
Existem duas derivações a partir deste raciocínio. Uma é a competitividade e a outra é a fuga do anonimato. Vou discorrer sobre a última porque a primeira é, de fato, apenas um efeito causado pela outra. Isso porque os serem humanos só são competitivos porque querem ser melhores que os outros em alguma coisa que os permita sobressair nesta sopa social. A competitividade sempre existiu e com as ferramentas tecnológicas disponíveis acaba acelerando os processos estressantes do nosso dia a dia. Existe o mito de que tudo precisa ser feito rapidamente para aumentar a chance de poder superar alguém pessoalmente ou no comércio. A realidade é diferente pois os elementos do sucesso são a eficiência e a eficácia, não a velocidade. Muitas empresas enriquecem numa vida curta colocando produtos no mercado antes dos concorrentes. Em geral são belas porcarias compradas por pessoas incapazes de distinguir qualidade de novidade.
Mas estou desviando do fluxo proposto para este texto... pessoas ! Este é o foco do que escrevo.
Quando os computadores eram caros, a internet era lenta, as redes sociais não existiam, tudo funcionava do mesmo modo. Um pouco mais devagar mas do mesmo modo. As pessoas eram (e continuam a ser) simples números num sistema político canhestro, sem esperança de conseguirem mostrar suas cabeças acima da multidão caso não tivessem nascido com um talento especial como driblar adversários, cantar com voz agradável ou ter a sorte de ganhar numa loteria.
A popularização dos telefones celulares e seu acesso na internet permitiu que o desconhecido virasse alguém popular pelo menos dentro de um certo círculo social. Novamente os mais talentosos conseguiram ampliar o raio deste círculo mas mesmo os sem talento algum podem ser os primeiros a publicar uma foto no face book e assim ganham popularidade instantânea com seus contadores de "likes".
Alguns dizem que este comportamento é natural dos humanos e todos tem esta necessidade de serem notados. Isso sempre existiu e depois destes 30 anos de inovações tecnológicas este comportamento ficou tão evidente que acabou criando uma nova mídia publicitária.
Corrijo minha frase acima: os humanos lêmingues caminhando para a morte não olham para cartazes publicitários... olham para seus celulares.
A indolência dos humanos é tanta que em vez de procurarem e desenvolverem seus talentos (para assim aparecerem na sociedade) preferem a preguiça dos dedos correndo no celular para postar algo na rede social. É mais fácil. Dá menos trabalho para aparecer.
Tudo isso que escrevo é motivado pelo espanto de meus neurônios ao perceber a contradição em que todos vivem: as pessoas não suportam viverem solitárias, precisando da proteção e companhia dada pelo grupo, pela sociedade. Porém, todas tem uma necessidade viral de sobressaírem neste grupo como indivíduos e se puderem ser melhores que os outros, invejados pelos outros, farão de tudo para conseguir. Querem ser indivíduos notáveis mas não suportam viver como indivíduos.
Os humanos são animais muito estranhos e acho que não existe paralelo nas outras espécies deste planeta porque tal comportamento leva inexoravelmente à extinção.
Quem sabe você que está lendo isso seja mais um destes humanos indolentes.
Se for e tiver coragem suficiente para continuar lendo vais ganhar uns conselhos grátis. Sei que conselho bom não é de graça, mas gosto dos humanos e ofereço estes como doação:
- Eduque seus filhos para não dependerem de amigos e turmas de amigos. Que tenham amigos nos mais diversos círculos sociais. Amigos para um esporte; amigos para jogar xadrez; para jogar videogame; para discutir sobre livros; para assistir filmes que nenhum dos outros amigos topam assistir; amigos para estudar. Se possível, todos diferentes. Eduque seus filhos a não precisarem pertencer a uma tribo, pois já pertencem a uma raça que vive em um planeta. Amigos são importantes em toda a vida de uma pessoa. Porém, amigos são AMIGOS. Seus filhos não precisam se adaptar aos amigos ou às tribos. Seus filhos devem crescer sabendo que possuem a capacidade de se desenvolverem individualmente, sem depender da aprovação de ninguém. Se tiverem sorte conhecerão algum amigo que vai durar a vida toda. Mas este será um AMIGO e vai ajudá-lo a crescer sem exigir nada em troca.
- Leia. Leia muito. Tenha coragem de ler obras literárias que tragam informações que você não está habituado a conhecer. Não leia devaneios de quem procura explorar a psique humana. Livros de autoajuda, encontros românticos, religião ou comédia são inúteis. Você pode viver estas situações românticas, orar para seu deus, assistir uma peça teatral ou ir a um psicólogo. Não precisar ler. Faça estas coisas!
Para leitura escolha uma biografia, história, ciência ou até mesmo uma ficção que lhe permita motivar seus pensamentos e portanto ampliar a capacidade de superar seus limites.
- Troque seu celular por um básico. Use-o apenas para falar quando é necessário. Se possível esqueça-o em casa quando for sair.
- Use o computador como uma ferramenta e não como um celular de tela grande.
- Ouça música. Veja bem: MÚSICA ! Não qualquer mistura de sons e vozes. Música deve agradar a você e não ser um símbolo do que acredita ou do que quer mostrar a outras pessoas. Música é algo que se você escutar sozinho vai se sentir satisfeito.
- Faça as coisas devagar. Não lentamente, mas sim de modo calmo e pensando bem o que está fazendo. Seja cuidadoso. Faça tudo bem feito. Tenha orgulho de seu trabalho ou de suas ações. Não se preocupe em ser o primeiro em alguma coisa; em chegar em casa mais cedo; em não perder um programa de TV; em chegar rápido no restaurante para almoçar; em ser o primeiro a sair no fim do expediente.
Pegue o ônibus menos lotado, o metrô mais confortável. Caminhe mais por ruas menos poluídas. Caminhe devagar.
- Seja silencioso. Aprecie fazer coisas sem barulho. O silêncio te permite escutar e pensar.
- Durma menos. Não se cale quando vê algo errado. Aceite e aprenda quando estiver errado.
- Você não tem que ser melhor do que outra pessoa. Você tem que ser melhor do que você. Não aceite viver na mediocridade.
Pronto... já é uma boa coleção de conselhos. Teria mais alguns mas estes não dou de graça.
Seguindo todos ou um só vai chegar um momento em que tu vais começar a pensar.
Não se assuste! Os humanos nascem com esta capacidade mas ao longo de sua história acabaram esquecendo disso.
Os políticos, os gerentes e diretores nas empresas de todo o mundo, de todos os países, para assegurar seu poder procuram não estimular as pessoas a pensar.
Pensar é perigoso a eles porque quem pensa não fica limitado ao que faz. Segue em frente e supera os que preferem a indolência e mediocridade preguiçosa.
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